Ela olhava para baixo. Sempre para baixo. Tinha medo de tropeçar. Hoje estava zumbi, noite mal dormida. Não sabia por onde começar, não queria começar, apesar das mil atribuições. Sabia: não nascera para o mundo corporativo, heterotopias da era passada. As mãos fediam a vômito, não importava o quanto as lavasse, e a insônia pesava a cada passo cambaleante. Pensava, em flashes, se as pessoas em volta a enxergavam bêbada. Venham cheirar minha boca, seus intrometidos! Viam mesmo? Talvez fosse paranoica. O motorista começou a passar reto em todos os pontos, não importava se tinha gente levantando o braço ou se o aviso luminoso estivesse aceso. Os passageiros ficavam irritados, gritavam, xingavam-no. Menos ela. Qual o problema de fugir do conhecido uma vez? Boring. Falaria foda-se na entrevista de emprego. Estava decidido. Foda-se. Não é possível ter síndrome de Raskólnikov na sociedade de controle. Não aguentaria mais olhar para a cara de uma entrevistadora burra numa saia ridícula cuja cintura apertava logo abaixo do peito, Melissa roxa de salto 12 e o rosto mascarado por pancake barato. Passaria duas semanas de inferno, se passassem. O tempo às vezes estagna e tudo se esvaece, volatiliza. E quando se pensa que o tempo passou, na verdade se está em um universo paralelo, onde tudo parece igual, mas é diferente. Só quem percebe a distinção sabe que não se está mais no mesmo tempo-espaço. O anterior, se é que se pode chamá-lo assim, não existe mais, ou não existimos mais nele. E isso porque ela não tinha, ainda, olhado pra cima.
5 feet under:
Olá Luana.
É só um primeiro comentário, preciso ler mais algumas vezes para encaixar o golpe das tuas palavras.
Buckwoski dizia que o bom escritor sabia boxear.
Há um horizonte no chão, um horizonte próximo.
"There I was completely wasting
Out of work and down
All inside it's so frustrating
As I drift from town to town
Feel as though nobody cares
If I live or die
So I might as well begin
To put some action in my life
Breaking the law, breaking the law..."
Eu, no geral, não gosto de pessoas. Mas as misantropas também me agradam.
Ai, ai...pobre escritora de receitas, sublimada e recalcada...como gostaria de esfregar as mãos com cheiro de vômito na cara uns e outros vez ou outra....
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