As ruínas cinza-amarronzadas comprovavam a teoria de que todos aqueles sonhos eram uma forma de premonição. Sonhos que ocorreram quando estava muito acordada, mesmo que em sono profundo. Sentavam-se e abraçavam-se muito, como se não houvesse mais o que ser feito. As costelas esmagadas umas contra as outras, os olhos a observar atentamente todas as naves que partiam. A catástrofe começara há alguns dias, e, desde então, não comiam, não faziam suas necessidades biológicas e não se moviam, à exceção de apertões que tornavam os diafragmas contraídos a impedir a respiração. Mas a respiração não era mais necessária. O desespero era pela insuportável nova densidade que se instalava, a cada segundo, nos trapézios contraídos. Entreolhavam-se, tranquilamente, enquanto todas as pessoas corriam para as naves como os habitantes da Cáprica invadida pelos Cylons. A Cáprica fora apenas um devaneio desesperado de um diretor asfixiado pela inexorabilidade da transformação de todos em cyborgs. Nem as ruínas resistiam sobre suas fundações. O chão despencava como se houvesse um planeta próximo de dimensões assustadoramente descomunais que chamava cada grão de terra como um aspirador de pó novo suga até as moedas que descuidadamente caem atrás da escrivaninha. Tinham consciência plena de que não haveria nada, absolutamente nada, depois daquilo. Não haveria Kobol, não haveria outra Terra, não haveria oásis, não haveria Deus, nem céu, nem inferno. Não haveria vida, não haveria sensações, não haveria sentimento. Mas estes já haviam morrido há algum tempo.
Enquanto os humanos desesperados corriam e elevavam-se aos poucos até flutuar sem peso esmagados em naves asfixiantes, enquanto o chão despencava sob seus pés, enquanto toda a água contaminada dispersava no ar paradoxalmente pesado e rarefeito, enquanto computadores, celulares, televisões, descobertas microbiológicas e genéticas nada mais significavam, nem mesmo a vida significava; naquele pequeno espaço físico e temporal o silêncio crescia em proporções inacreditáveis.
Lembrou-se de livros de Saramago, de William Gibson, de George Orwell. Sempre soubera. Sempre. Agora restava apenas o silêncio, o sangue escarlate escorrendo denso sobre a pele branca das duas. Há algumas horas deixaram de se questionar sobre o significado de todas as coisas. E agora só o silêncio. Como? Como olhar todos partirem para um lugar e tempo inexistentes? Elas já estavam em um lugar e tempo inexistentes. Elas já eram inexistentes.
No earth below us
We're drifting, falling.
Floating weightless
Nowhere
5 feet under:
Delicioso. Fantástica a sua habilidade de nos surpreender com palavras e de se superar a cada conto. Realmente inaudito.
Beijo.
Olá Luana .
Um flerte com a ficção científica e toques existencias ( ou na verdade o cerne do conto - ou ainda um trecho de algo maior?)
Gostei muito .
um beijo .
Juca: Obrigada!
Игорь: Surpresa...
Uma brecha no tempo, trouxe-me aqui de novo.
Surpresa ?
haverá
um dia
em que
sobrarão
apenas
as sobras
rebarbas
e arestas
facilmente
tesouráveis
Saudade!
Tudo de bom
Mil bjs
Mil cores
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