sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nada

Então foi que parou de escrever.
Terminou a graduação, entrou no mestrado, trocou de emprego.
Conseguiu até tempo para dormir. Mas parou de escrever.
Imaginou histórias, estórias, causos. Elaborou narrativas, contos, romances.
Mas não os tirou dos arquivos internos da mente.
Republicou contos. Republicou artigos.
Releu livros e blogs.
Mas teve sim muitas ideias fascinantes. Ideias para narrativas fabulosas, análises críticas inteligentíssimas para engordar seu currículo lattes.
E foi então que descobriu que nenhuma dessas ideias era original. Eram originais para ela, que nunca tinha lido nada tão inovador. Acontece que alguém mostrou que não era inovador. Que, em caso de publicação, poderia sofrer processo por plágio. Passou a pensar então que, antes de publicar qualquer coisa, precisaria primeiro pesquisar a fundo se nada daquilo fora publicado antes. Mas há tanta gente no mundo, e tanta coisa indisponível online (e ela é da época pré-internet, sabe que há muito publicado em livros, nas empoeiradas bibliotecas municipais e das universidades). Logo, não poderia publicar nada. Não pelo medo de sofrer um processo por plágio, mas por não ser original. Não há como ser original num mundo com tanta gente. E assim como o artista da fome de Kafka, haveria o risco de seu texto não ser percebido, nem lido, nem visto, até a morte da obra por inaninção. A comunicação rápida impede que livros sejam lidos, que contos sejam devidamente apreciados, e a crítica literária acadêmica, coitadinha, só existe para consulta rápida por mestrandos e doutorandos desesperados por algum pão para alimentar suas teses.
Parou de escrever.

2 feet under:

Eduardo Lara Resende disse...

Viva! Reaparecimento aplaudido.
Sobre o texto: amarga verdade. Lembrança que a gente faz de conta que não existe mais, de tão amarga. Acho (ainda) que vale a pena insistir...
Abraço grande.

Carla Kinzo disse...

Viva, Luana. Gosto muito de te ler, mesmo (ou principalmente) quando dói.