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terça-feira, 20 de outubro de 2009
Um inseto
Humilhava-se infinitamente mais com o interesse fingido do que com o desinteresse declarado. Seria bem acolhido na cidade de Platão. Contudo, era poeta. E o poeta é um eterno fingidor. Mas um fingidor de signos, não de significados. Na oralidade Griô, no relacionamento talvez inexistente fora da pena e do papel, era só o significado. E quando este, que era o que mais importava, foi ainda mais fingido que a pena do poeta, a humilhação foi tamanha que abandonou-a. Preferia não ter recebido nada. Aviso aos desavisados: por isso seria aceito. Caso contrário, teria de continuar fingindo não fingir para entrar na cidade. Acabou por não ter de fingir mais nada. Olhou o portão entreaberto, titubeou, virou as costas e seguiu pela estrada de viajante nômade e desolado. Sozinho. Sem o significado. Sem a pena. Sem a cidade.
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Luana Inaudita
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Sobre o quê? literatura
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O Caldo
Centrada na falta de centro, as ideias pululam e ameaçam explodir o que resta de massa cinzenta.
Elabora a falta de elaboração, e os projetos prosseguem no absoluto caos.
Tranquiliza os outros, oferece suporte, enquanto o cortisol ultrapassa o percentual de hemácias nas veias e o chão se despedaça e despenca feito a casa que não tinha teto e não tinha nada.
Doada por inteiro: órgãos, sangue, bens, sentimentos; ao mesmo tempo em que o que resta é a falta de resto. Mas ainda se recusa a mendigar e revirar os lixos em busca dos seus pedaços.
Recebem seus segundos, seus minutos, suas horas e seus dias, enquanto as rugas tomam conta da face e os cabelos brancos cismam em brilhar por entre os fios negros, além de questionar-se incessantemente: onde foi parar o meu tempo? Ele nunca parou, mas nunca foi dela.
Os trabalhos seguem opressivos e inacabados, mesmo que a eles sejam dedicadas as últimas reservas de ATP. A recompensa é um cansaço interminável, dada a frequente insônia que persegue os poucos minutos de sono que restam.
A menina continua com sua ladainha e sua cabeça deformada dentro da caixa: aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhnnnnnnnnnnn! aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhnnnnnnnnnnnn!
A ponte despenca com ela em cima.
As escadarias estão lavadas em sangue. Há corpos desenhados em giz. Três ou quatro. Espirros nas laterais. Lembra-se que sobe e desce pelo menos uma vez ao dia.
Os corvos e urubus carregam cobras ainda vivas em seus bicos, enquanto a fênix, acinzentada, não tem mais energias para ressurgir.
O álcool desprega a pele das costas de quem nunca fez mal a ninguém. A menina mais pura perde seu ente.
Os dentes caem todas as noites no ralo da pia, e não é possível reimplantá-los. Há tantos dentes, mas tantos dentes, que o desespero não cessa. E a Morte come a sopa pelas bordas, colherada a colherada.
A moça brinca com as crianças descalças nas ruas da cidade, elas moram numa calçada do Itaim. Seu cobertor é uma carroça de coletar papel para reciclagem. Elas riem alto e não reclamam. Furam seus pezinhos com cacos de vidro infectado, ganham cicatrizes e perdem a inocência a qual nunca tiveram direito.
A escada continua sangrando e o fio de telefone é enroscado no pescoço.
Há cinco anos ela ressurgiu. Não tem mais forças. Continua viva? Suas penas regeneram-se, mas ela não voa. Arrasta-se, oprimida, abatida, destruída, envergonhada, suicida.
Elabora a falta de elaboração, e os projetos prosseguem no absoluto caos.
Tranquiliza os outros, oferece suporte, enquanto o cortisol ultrapassa o percentual de hemácias nas veias e o chão se despedaça e despenca feito a casa que não tinha teto e não tinha nada.
Doada por inteiro: órgãos, sangue, bens, sentimentos; ao mesmo tempo em que o que resta é a falta de resto. Mas ainda se recusa a mendigar e revirar os lixos em busca dos seus pedaços.
Recebem seus segundos, seus minutos, suas horas e seus dias, enquanto as rugas tomam conta da face e os cabelos brancos cismam em brilhar por entre os fios negros, além de questionar-se incessantemente: onde foi parar o meu tempo? Ele nunca parou, mas nunca foi dela.
Os trabalhos seguem opressivos e inacabados, mesmo que a eles sejam dedicadas as últimas reservas de ATP. A recompensa é um cansaço interminável, dada a frequente insônia que persegue os poucos minutos de sono que restam.
A menina continua com sua ladainha e sua cabeça deformada dentro da caixa: aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhnnnnnnnnnnn! aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhnnnnnnnnnnnn!
A ponte despenca com ela em cima.
As escadarias estão lavadas em sangue. Há corpos desenhados em giz. Três ou quatro. Espirros nas laterais. Lembra-se que sobe e desce pelo menos uma vez ao dia.
Os corvos e urubus carregam cobras ainda vivas em seus bicos, enquanto a fênix, acinzentada, não tem mais energias para ressurgir.
O álcool desprega a pele das costas de quem nunca fez mal a ninguém. A menina mais pura perde seu ente.
Os dentes caem todas as noites no ralo da pia, e não é possível reimplantá-los. Há tantos dentes, mas tantos dentes, que o desespero não cessa. E a Morte come a sopa pelas bordas, colherada a colherada.
A moça brinca com as crianças descalças nas ruas da cidade, elas moram numa calçada do Itaim. Seu cobertor é uma carroça de coletar papel para reciclagem. Elas riem alto e não reclamam. Furam seus pezinhos com cacos de vidro infectado, ganham cicatrizes e perdem a inocência a qual nunca tiveram direito.
A escada continua sangrando e o fio de telefone é enroscado no pescoço.
Há cinco anos ela ressurgiu. Não tem mais forças. Continua viva? Suas penas regeneram-se, mas ela não voa. Arrasta-se, oprimida, abatida, destruída, envergonhada, suicida.
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Luana Inaudita
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22:38
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Livre 3
Olhava-se no espelho. Parecia bastante jovem para a idade. E isso que nem aderira ao tratamento com células dentárias para evitar o envelhecimento, pois acreditava que a jovialidade deveria ser dissociada do corpo. Observava diariamente as rugas e os cabelos louros que se tornavam grisalhos. Quase não saía na rua, porque exigiam que quem saísse raspasse os cabelos e ele queria deixá-los compridos, talvez influenciado pelos amigos da mãe da época em que tinha dois ou três anos: um bando de rockeiros cabeludos. Mas todos haviam morrido. Agora quem tinha cabelos era demasiadamente sortudo e seria até uma falta de noção raspar, já que isso o diferenciava dos outros. Mas se fosse pego na rua com cabelos, não sabia nem qual poderia ser sua sanção. Preferia não arriscar. Gostava de ser diferente, mas não podia mostrar isso, mesmo porque para sair da sua cápsula à rua era necessário o uso do tubo de oxigênio e do complemento ao macacão branco que refletia os raios de sol e ele definitivamente não se adaptava a esses apetrechos. Sentia-se asfixiado. Limpava o rosto com os lenços umedecidos e sentia nojo dos aracnídeos na sua cútis. Lembrou-se que sua mãe falara que quando havia casas e apartamentos, esses eram abastecidos com encanamentos de água potável e as pessoas usavam água para quase tudo, inclusive para tomar banho, lavar o rosto e mandar seus excrementos esgoto abaixo. Devia ser boa a sensação da água no rosto... Nem conseguia imaginar o que seria senti-la escorrendo pelo seu corpo todo. Sentiu um nojo terrível dos lenços umedecidos com cheiro de detergente barato. Não sabia o que era detergente barato, mas habituara-se a usar as expressões da mãe. Afastou o espelho do rosto e cerrou as pálpebras. Caiu de costas no fouton e buscou recordações dela. Mesmo o suicídio sendo legalizado hoje - luta de diversas pessoas que não conseguiam suportar as condições de existência - não podia compreender o porquê. Ele só tinha a ela. E foi terrível encontrá-la naquelas condições. Anos mais tarde descobriu através dos escritos dela publicados na rede que optara pelo enforcamento em detrimento dos métodos desenvolvidos para uma morte sem sofrimento por causa do sucídio do homem que viria a se tornar seu ídolo na adolescência, um inglês vocalista de uma banda cuja carreira meteórica foi responsável pelo agravamento da sua psicopatologia e conseqüente suicídio. E naquela época o suicídio não era permitido (fato bastante irônico diga-se de passagem, pois no caso de ser bem-sucedido, como a pessoa pagaria por uma pena?).
Do outro lado do muro, no norte, o suicídio não havia sido permitido ainda. Não se sabe nem se um dia seria. Lembrou-se do seu correspondente. Gostava muito dele, o que era uma fator bastante relevante, já que cada pessoa só poderia corresponder-se através da rede com uma única pessoa do outro lado do muro, estipulada pelos inspetores da rede. Não compreendia o porquê disso, mas estava cansado demais para divagar a respeito.
Ligou o seu Livre. Predag estava online.
"Michel! Que bom falar contigo!"- Não falavam a mesma língua, o livre traduzia tudo simultaneamente. Tinha certeza que os inspetores liam e bloqueavam conteúdos não desejados, porque havia um delay de 2 segundos por sentença enviada. Tinha a impressão que ao norte do muro eles tinham acesso a mais informações da rede, chegara a perguntar coisas a Predag, mas não obteve resposta. Supôs que a pergunta fora bloqueada pela inspeção.
Do outro lado do muro, no norte, o suicídio não havia sido permitido ainda. Não se sabe nem se um dia seria. Lembrou-se do seu correspondente. Gostava muito dele, o que era uma fator bastante relevante, já que cada pessoa só poderia corresponder-se através da rede com uma única pessoa do outro lado do muro, estipulada pelos inspetores da rede. Não compreendia o porquê disso, mas estava cansado demais para divagar a respeito.
Ligou o seu Livre. Predag estava online.
"Michel! Que bom falar contigo!"- Não falavam a mesma língua, o livre traduzia tudo simultaneamente. Tinha certeza que os inspetores liam e bloqueavam conteúdos não desejados, porque havia um delay de 2 segundos por sentença enviada. Tinha a impressão que ao norte do muro eles tinham acesso a mais informações da rede, chegara a perguntar coisas a Predag, mas não obteve resposta. Supôs que a pergunta fora bloqueada pela inspeção.
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Luana Inaudita
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17:58
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
Once Again
Mais vale um gato na gaiola a uma fênix voando?
Desestruturou-me
Minuciosamente
Esquartejou-me
Cirurgicamente
Inseriu-me
no peito pedaço a pedaço
como um curativo
um sentido
para o que não tinha
Sei que permiti.
Solicitou
que todas as minhas sinapses
transmitissem a seu favor
Para elas não há curativo
Minha serotonina
está em seu sangue
Mesmo que não lhe seja mais necessária.
Conseguiu juntar seus pedaços?
Deixe-me procurar os meus
intranquilos
sem precedentes?
desinteressantes
pe
da
ços.
Antes que eu morra mais uma vez.
Afinal, um gato pode ser real. Uma fênix parece deslumbrante, mas não existe.
I got nothing to say I ain't said before
I bled all I can, I won't bleed no more
I don't need no one to understand
Why the blood run hold
The hired hand
On heart
Hand of god
Floodland and driven apart
Run cold
Turn
Cold
Burn*
Minuciosamente
Esquartejou-me
Cirurgicamente
Inseriu-me
no peito pedaço a pedaço
como um curativo
um sentido
para o que não tinha
Sei que permiti.
Solicitou
que todas as minhas sinapses
transmitissem a seu favor
Para elas não há curativo
Minha serotonina
está em seu sangue
Mesmo que não lhe seja mais necessária.
Conseguiu juntar seus pedaços?
Deixe-me procurar os meus
intranquilos
sem precedentes?
desinteressantes
pe
da
ços.
Antes que eu morra mais uma vez.
Afinal, um gato pode ser real. Uma fênix parece deslumbrante, mas não existe.
I got nothing to say I ain't said before
I bled all I can, I won't bleed no more
I don't need no one to understand
Why the blood run hold
The hired hand
On heart
Hand of god
Floodland and driven apart
Run cold
Turn
Cold
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Luana Inaudita
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15:22
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Sobre o quê? morte
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Livre 2
Dobrou o pedaço de papel que estava amassado e amarelado. Uma lágrima escorria em seu rosto atônito.Tirou o bloquinho da mãe do bolso do macacão de todo dia e fitou-o compenetradamente. Além das publicações virtuais, era tudo o que sobrara dela. Aos poucos compreendia.
Abriu o bloco de anotações e procurou em meio a tantos escritos, esboços e rabiscos, uma folha em branco. Pôs-se a escrever com sua caneta esferográfica meio estourada. Talvez a última existente.
São Paulo, 29 de junho de 2069.
Queria poder escrever uma carta para a senhora assim como essas pessoas adeptas dessas novas religiões pós-catástrofe fazem aos antepassados, acreditando que eles receberão as mensagens. Mas sou como você. Não acredito que haja um “post mortem”. Logo, escrevo para mim mesmo, no intuito de expurgar esse sentimento.
Descobri que a felicidade é utópica. Assim como o céu, o socialismo ou o paraíso. Eu, honestamente, respeito quem almeja a felicidade, assim como quem tem uma religião. Porque é mesmo muito difícil ver tudo isso e suportar sem acreditar em alguma coisa. Devo confessar, contudo, que não respeito quem é feliz. Pois quem diz deter essa instituição chamada felicidade é absolutamente ignorante. Não ignorante no sentido de ausência ou carência de erudição, mas ignorante no sentido de cegar-se a tudo o que se passa a sua volta. Porque se alguém vê toda essa destruição e sofrimento humano não tem a capacidade de ser feliz. Não há como.
Na verdade não é bem isso. Eu abomino essas três classes de pessoas. Porque elas são dotadas de esperança. Ao contrário delas, não vivo com esse sentimento, considerado por muitos uma virtude. Explico: Esperança vem de esperar. E eu não espero. Faço. Quando não há como fazer, morro um pouco.
Abriu o bloco de anotações e procurou em meio a tantos escritos, esboços e rabiscos, uma folha em branco. Pôs-se a escrever com sua caneta esferográfica meio estourada. Talvez a última existente.
São Paulo, 29 de junho de 2069.
Queria poder escrever uma carta para a senhora assim como essas pessoas adeptas dessas novas religiões pós-catástrofe fazem aos antepassados, acreditando que eles receberão as mensagens. Mas sou como você. Não acredito que haja um “post mortem”. Logo, escrevo para mim mesmo, no intuito de expurgar esse sentimento.
Descobri que a felicidade é utópica. Assim como o céu, o socialismo ou o paraíso. Eu, honestamente, respeito quem almeja a felicidade, assim como quem tem uma religião. Porque é mesmo muito difícil ver tudo isso e suportar sem acreditar em alguma coisa. Devo confessar, contudo, que não respeito quem é feliz. Pois quem diz deter essa instituição chamada felicidade é absolutamente ignorante. Não ignorante no sentido de ausência ou carência de erudição, mas ignorante no sentido de cegar-se a tudo o que se passa a sua volta. Porque se alguém vê toda essa destruição e sofrimento humano não tem a capacidade de ser feliz. Não há como.
Na verdade não é bem isso. Eu abomino essas três classes de pessoas. Porque elas são dotadas de esperança. Ao contrário delas, não vivo com esse sentimento, considerado por muitos uma virtude. Explico: Esperança vem de esperar. E eu não espero. Faço. Quando não há como fazer, morro um pouco.
Fechou o bloco. Lembrou-se dos cabelos azuis, há muitos anos.
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Luana Inaudita
às
18:10
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