A menina tinha olhos muito grandes cor de avelã. Cabelos que estendiam-se até o meio do pescoço e uma curiosidade que já conhecia. Observava-a também através do espelho.
Estaria ela apenas olhando seu reflexo? Não podia ser. Esboçou um sorrisinho meio sarcástico. Parecia que o coração pularia pela boca. Deveria sorrir também? Não. Não gostava de sorrir. Muito menos para o desconhecido. Permaneceu encarando-a. Estava muito cansada. A reforma do apartamento do vizinho a impedia de dormir. Dormia das oito ao meio-dia, e esse era o horário em que as furadeiras, picaretas e britadeiras não cessavam.
A pequena fez sinal com a mão lá do outro lado. Resolveu retribuir. Tentou falar algo, mas não conseguiu. Prestou atenção às feições da criança. Parecia-se deveras com ela. Estava enlouquecendo. Sim, só podia ser isso. A pequena gargalhou ironicamente, e o som de sua risada pôde ser ouvido através do espelho. Mas como assim? Som? Não há outra possibilidade. Enlouqueci de vez. Mais gargalhadas.
"Páááááááááááááááára!" Perdeu a paciência. A garotinha soltou outra gargalhada.
"Não é possível que eu vá ficar assim."
"Heim?" Então percebeu. Era ela mesma. Como? Não se lembrava de ter-se visto mais velha alguma vez na vida. Na verdade sempre acreditara que morreria muito jovem. Coisa de romântico tuberculoso da terceira geração. Tentou esboçar uma conversa, mas a menina não respondeu. Por que não respondia?
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