Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

3. Trip

Não via sua imagem. Repetiu a operação de afastar e aproximar o espelho do rosto. Tremia. Com o olho esquerdo fechado e o direito focado no espelhinho avistou novamente a menina. Resolveu enfrentar seu receio: permaneceu olhando.
A menina tinha olhos muito grandes cor de avelã. Cabelos que estendiam-se até o meio do pescoço e uma curiosidade que já conhecia. Observava-a também através do espelho.
Estaria ela apenas olhando seu reflexo? Não podia ser. Esboçou um sorrisinho meio sarcástico. Parecia que o coração pularia pela boca. Deveria sorrir também? Não. Não gostava de sorrir. Muito menos para o desconhecido. Permaneceu encarando-a. Estava muito cansada. A reforma do apartamento do vizinho a impedia de dormir. Dormia das oito ao meio-dia, e esse era o horário em que as furadeiras, picaretas e britadeiras não cessavam.
A pequena fez sinal com a mão lá do outro lado. Resolveu retribuir. Tentou falar algo, mas não conseguiu. Prestou atenção às feições da criança. Parecia-se deveras com ela. Estava enlouquecendo. Sim, só podia ser isso. A pequena gargalhou ironicamente, e o som de sua risada pôde ser ouvido através do espelho. Mas como assim? Som? Não há outra possibilidade. Enlouqueci de vez. Mais gargalhadas.
"Páááááááááááááááára!" Perdeu a paciência. A garotinha soltou outra gargalhada.
"Não é possível que eu vá ficar assim."
"Heim?" Então percebeu. Era ela mesma. Como? Não se lembrava de ter-se visto mais velha alguma vez na vida. Na verdade sempre acreditara que morreria muito jovem. Coisa de romântico tuberculoso da terceira geração. Tentou esboçar uma conversa, mas a menina não respondeu. Por que não respondia?

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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

2. Digressão

Desceu a Rua Frei Caneca apressada para sabe-se-lá-o-quê. Talvez fosse só ansiedade. Sua mente não parava um instante, numa onda de digressões de digressões de digressões... Seriam alucinações? Lembrou-se do Clonazepam. Não lembrava de haver algo escrito na bula sobre alucinações. Mas não a lera por completo. É verdade que sabia bem que não deveria beber enquanto o estivesse tomando, mas às vezes dava umas escapadelas no trabalho. Agachava-se por baixo do balcão do bar até um ponto em que não estivesse visível à câmera e aos clientes e virava um shot de Jack Daniels. Só assim agüentava, estava muito cansada do trabalho. carregava caixas e caixas de cerveja na montagem, atendia aos clientes desprovidos de qualquer educação a noite toda e quando não agüentava mais ainda tinha que lavar o bar e fazer a contagem de estoque. Sim, ela merecia uns três shots de Jack. Merecia mesmo? Ou isso seria auto-engano? Uma forma de justificar um erro? Mas era um erro? O que é um erro? Não era nada disso. Na época em que usava as outras substâncias, as que não se comprava na farmácia, não tinha alucinações. Tudo bem, às vezes via vultos e parecia estar possuída por alguma forma de entidade, mas era efeito da euforia e aceleração causadas pela sua ajudante. Ai, o que seria então? Será que estaria enlouquecendo? Era bem possível. Tinha ciência de que já não era muito igual aos outros. Essas conversas dúbias dentro de si já comprovavam a tese. Mas se estava realmente louca, valeria a pena internar-se? Seria perigosa para as outras pessoas? Para as outras pessoas não sabia, mas para si mesma, talvez. Em rápidos flashes lembrou-se da internação por O.D.. Fugira daquele hospital insalubre na calada da noite, e levou sua ficha junto. Isso não foi suficiente para que as assistentes sociais não a incomodassem por mais de um ano sugerindo tratamentos e grupos de apoio... Sempre pensou ser um tipo de extraterrestre, talvez a menina fosse alguém do seu planeta vindo buscá-la. Finalmente! será que ela encontraria seu lugar no outro planeta? Lembrou-se que quando era criança pensava que uma pessoa ALIENada fosse descendente de aliens. Logo, ela deveria ser uma alienada. Não, não era isso. Por que no pote de blush? Tudo bem, era glamouroso. Entrou no elevador olhando para o chão. Teve medo de enfrentar as paredes de espelho. Medo do quê? Entrou em casa. Correu para o banheiro, lavou muito bem as mãos e o rosto. Encarou-se no espelho do banheiro. Além das olheiras terríveis e arroxeadas e da enorme e dolorosa espinha interna que crescia no seu queixo não via nada de excepcional.
Entrou no quarto, sentou-se na cama. Abriu a bolsa e pegou o pote de blush. Fitou-o e o entreabriu cautelosamente.

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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

1. O portal

O metrô novo fazia um barulho bem mais suave que o antigo. Finalmente haviam trocado todos os trens da linha verde. O movimento era mais contínuo, o que dava um pouco de enjôo, mas ela conseguia maquiar-se com precisão, sentada no banco direcionado ao centro do vagão. Passava delicadamente o rímel no canto interno do olho esquerdo, quando percebeu não conseguir mais ver-se refletida no espelho circular do potinho de blush.
O senhor ao seu lado gargalhava e lia um livro em quadrinhos. Pelo estilo do homem, deveria ser Dilbert. O metrô estava relativamente vazio. Não era horário de rush e após os últimos acidentes com trens descarrilhados, as pessoas tinham medo desse transporte.
Estranhou. Como não se via mais? Tirou os olhos do espelho e focou na tela logo a frente. Enxergava-a normalmente. Focou na propaganda de uma universidade de esquina qualquer que havia sobre a porta. Perfeito. Voltou a focar no pequeno aparato reflector: Nada. Aproximou-o do olho direito. Viu qualquer coisa, não muito definida, mas não era seu reflexo. Afastou e aproximou novamente. As formas começaram a delimitar-se. Uma criança, provavelmente menina, olhava-a através do espelho. Assustada, afastou-o do rosto. Fechou o estojo de maquiagem. Chegara à Estação Consolação.

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Mais sobre a menininha.

A menininha agora era uma mulher perto dos trinta, que aprendera- a duras penas - a se aceitar, mesmo que os outros não o fizessem - e nem precisavam. Lembrou-se do médico homeopata explicando para a sua mãe sobre o seu remédio de fundo. Que o remédio de fundo era o remédio que deveria sempre ser tomado concomitantemente com outros remédios todas as vezes que ficasse doente. Ele ajudaria a controlar os aspectos difíceis da personalidade da pequena que cresceriam exponencialmente quando adoecesse. Devia ter uns quatro anos quando esse fato sucedera. Como poderia ter memórias tão remotas?
Lembrou-se que sempre que ficava doente e a mãe ou o médico davam-lhe algum medicamento, corria ao Guia de Medicina Homeopática do Dr. Nilo Cairo e procurava a descrição do remédio, suas acções e o tipo de pessoa a quem se destinava como remédio de fundo. Mas curiosamente, nunca procurara ler sobre o seu próprio remédio de fundo. Talvez por medo. No Guia, eram especificadas em detalhes as características físicas e psicológicas do paciente daquele remédio, uma coisa meio mágica, até. Talvez por isso nunca lera. Quiçá por odiar-se, não queria ver suas características definidas num livro. Ou o medo era de que o médico houvesse errado.
Agora, com quase trinta anos de bagagem, decidiu ler.

Nux Vomica
Pertence às Loganiaceae.
Moreno, cabelos pretos, pele muito clara, magro, colérico, irritável, impaciente, teimoso, nervoso, melancólico, de preocupações de espírito, neurastênico e hipocondríaco, constantes sintomas gastrintestinais, excessos sexuais: tal é o doente de nux vomica. (...)

E então descobriu o motivo do ato falho de não ler outrora. O médico acertara em cheio. E se tivesse lido antes, não chegaria aos vinte e nove para ler.

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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Como se sente quando sente?

Apertou ao máximo as fitas negras de cetim que se cruzavam nas costas. Caprichou no laço, para que as barbatanas de aço ajustassem-se e espremessem seu tronco deixando-a ainda mais acinturada. Colocou uma saia rodada muito curta, um coturno com fitas de cetim também negras, aplicou pó compacto branco na face e pescoço, o que a fez parecer consideravelmente fantasmagórica. Aplicou cuidadosamente uma grossa camada de rímel preto. Não esqueceu dos anéis pontiagudos de dragão, das pulseiras de couro negro e da gargantilha, cuja pequena cruz ansata de prata representava não a vida, como no egito antigo, mas a morte das sensações que a atacara há alguns anos. Os sentidos, quase sempre os tinha. Mas as sensações, o que eram mesmo? As situações cotidianas e as porradas diárias a impediam de sabê-lo. Tentava ignorar o fato, não gostava de fazer-se de vítima, mas sabia muito bem que faltava algo. Era como se estivesse entorpecida por uma forma de soma, a droga do Admirável Mundo Novo. E ao contrário de Bernard, não tinha opção.
Desceu as longas escadas do centro, sem medo dos sujeitos que pareciam estar lá para roubar celulares e Ipods ou violentar as moças que por lá passassem arrastando-as aos becos da praça. Desceu com um longo casaco com capuz preto. Ninguém a ameaçou. Correu ao ponto e pegou o ônibus. Não quis se sentar. Desceu no dito lugar. Como poderia estar lá? Auxiliou alguns gringos que tentavam comunicar-se com os seguranças. Entrou. Tremia. Sentiria algo?

Do you get scared to feel so much?
To let somebody touch you?
So hot, so cold
So far so out of control
Hard to come by
And harder to hold

Viu-os, ouviu-os, tocou-os. Esperou o mais antigo por duas horas, afinal, ele precisava descansar.
Saiu do backstage, cumprimentou-a, aceitou tirar uma foto.
"How does it feel to be there? How does it feel to feel something?" - Sussurou no ouvido dele, com uma ansiedade terrível.
"I don't feel. My feelings died a long time ago."
Então ela compreendeu. Há tempos não estava viva. Mas escolhia continuar assim, porque paradoxalmanete as pessoas vivas têm medo de viver.

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